Flamengo e Fluminense podem ficar até seis meses sem mando de campo


MPRJ apura possíveis irregularidades na comercialização e distribuição de entradas e avalia consequências previstas na Lei Geral do Esporte


Data: 12/09/2026 - Por: Marcelo Amorim / DRT: 0003482/MT


Crédito da Foto: Arquivo/Assessoria

Flamengo e Fluminense podem ficar até seis meses sem mando de campo

Uma investigação do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) colocou Flamengo e Fluminense no centro de uma apuração sobre possíveis irregularidades na venda e distribuição de ingressos para partidas realizadas no Maracanã.

O procedimento analisa jogos dos dois clubes desde 2025 e aponta suspeitas de comercialização de entradas acima dos limites autorizados para determinados setores.

A apuração é conduzida pelo Grupo de Atuação Especializada do Desporto e Defesa do Torcedor (GAEDEST/MPRJ) e posteriormente encaminhada à Promotoria de Justiça de Urbanismo. Entre os envolvidos estão os dois clubes, a Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (FERJ), a Fla-Flu Serviços S.A., responsável pela administração do estádio, e empresas ligadas à operação dos ingressos.

Segundo os documentos analisados pelo Ministério Público, em determinadas partidas a quantidade de entradas disponibilizadas teria ultrapassado os limites previstos nos laudos de segurança. Os principais questionamentos envolvem o setor norte e o espaço oeste superior, localizado na área onde anteriormente funcionavam as cadeiras cativas.

Além da questão relacionada à segurança, o MPRJ investiga possíveis diferenças entre a quantidade de ingressos comercializados e os números registrados oficialmente nos borderôs. A movimentação financeira relacionada às eventuais divergências é estimada em aproximadamente R$ 1 milhão por mês.

Números também preocupam órgãos de segurança

A investigação busca esclarecer se os dados utilizados para definir a capacidade do Maracanã correspondem, de fato, ao público que pode ser recebido em cada setor.

Essa diferença é considerada relevante porque os números servem de base para o planejamento das operações de segurança, incluindo policiamento, atendimento médico e controle da circulação dos torcedores.

Caso seja comprovado que a capacidade considerada nos planejamentos era inferior ao público efetivamente presente, existe a possibilidade de que as forças de segurança tenham trabalhado com um contingente abaixo do necessário.

Flamengo é questionado sobre setor norte

No caso do Flamengo, a investigação encontrou indícios de que os limites autorizados teriam sido ultrapassados principalmente na arquibancada norte e no setor oeste superior.

De acordo com a apuração, aproximadamente 2,1 mil ingressos adicionais poderiam ter sido disponibilizados na área norte em determinadas partidas. A investigação aponta que parte da carga originalmente destinada a outros setores teria sido transferida para atender sócios-torcedores.

O Ministério Público também analisa o sistema de controle das catracas. Embora a tecnologia permita acompanhar em tempo real a entrada de torcedores, o mecanismo de bloqueio automático ao atingir o limite de determinado setor não estaria sendo utilizado.

O Maracanã tem capacidade total informada de 73.609 pessoas. Em alguns dos jogos investigados, entretanto, determinados setores teriam registrado público superior aos limites previstos nos documentos de segurança.

Um dos exemplos citados envolve o setor norte, que teria recebido cerca de 23,4 mil torcedores, enquanto o limite estabelecido pela Polícia Militar seria de aproximadamente 21,3 mil.

Fluminense é investigado por distribuição de ingressos

A situação envolvendo o Fluminense apresenta uma característica diferente. Segundo a investigação, não foram identificados, nos cinco jogos analisados, registros de público acima da capacidade total do estádio ou dos limites específicos dos setores.

O questionamento está relacionado à quantidade de ingressos disponibilizados para venda. O MPRJ apura se o clube teria colocado à disposição do público uma carga superior à autorizada.

Os investigadores também analisam situações em que determinados setores permaneceram fechados enquanto outras áreas receberam quantidade maior de torcedores. A distribuição do público faz parte dos critérios de segurança estabelecidos para o funcionamento do estádio.

Setor das cadeiras cativas também é investigado

Outro ponto de atenção é o setor oeste superior, instalado na área anteriormente ocupada pelas cadeiras cativas do Maracanã.

Os documentos indicam uma capacidade autorizada de 5.019 pessoas, mas alguns registros apontariam presença superior a seis mil torcedores em determinadas partidas.

A diferença levantou dúvidas sobre a origem dos ingressos e a forma como os acessos ao setor foram disponibilizados. O Ministério Público também deverá analisar a situação das cadeiras perpétuas e quem possui atualmente direito de acesso à área.

A Superintendência de Desportos do Estado do Rio de Janeiro (SUDERJ), responsável pela regulamentação dos assentos perpétuos, poderá fornecer informações para esclarecer a situação.

Ao menos 16 partidas estão na investigação

O procedimento reúne partidas de Flamengo e Fluminense disputadas desde o fim de 2025. Entre os confrontos analisados estão jogos do Campeonato Brasileiro, Campeonato Estadual e competições internacionais.

No caso do Flamengo, aparecem na relação partidas contra Ceará, Fluminense, Medellín, Bahia, Vitória, Vasco, Estudiantes, Palmeiras, Coritiba e São Paulo, entre outros confrontos.

Já entre os jogos do Fluminense estão duelos contra Flamengo, Bolívar, Deportivo La Guaira, Vasco e Rivadavia.

Laudos do Corpo de Bombeiros e da Polícia Militar estão sendo utilizados para comparar os limites autorizados com os números de público registrados nos jogos.

Clubes terão de prestar esclarecimentos

Flamengo, Fluminense, FERJ, Fla-Flu Serviços e as empresas envolvidas na comercialização e operação dos ingressos foram comunicados pelo Ministério Público.

As instituições receberam prazo para apresentar documentos e explicações sobre as diferenças identificadas durante a apuração.

O Fluminense negou ter comercializado ingressos acima da carga autorizada e afirmou que não realiza esse tipo de prática. O Flamengo, até o momento, não havia respondido aos questionamentos. A FERJ informou que prestará os esclarecimentos solicitados dentro do prazo estabelecido.

Perda de mando pode ser uma das consequências

Além de possíveis consequências administrativas, o Ministério Público analisa os efeitos esportivos que poderiam ocorrer caso as irregularidades sejam confirmadas.

A comercialização de ingressos em desacordo com os limites estabelecidos pode configurar infração prevista na Lei Geral do Esporte, que prevê, dependendo da situação, punições que podem incluir perda do mando de campo por até seis meses.

Por enquanto, não há definição de punição. A investigação ainda está na fase de coleta e análise de documentos, e o MPRJ deverá avaliar as respostas dos clubes, da administradora do Maracanã, da federação e das empresas responsáveis pelos ingressos antes de decidir quais medidas serão adotadas.

O objetivo da apuração é esclarecer se houve efetivamente venda de entradas acima dos limites autorizados, divergências nos registros oficiais de público e falhas nos mecanismos utilizados para controlar a capacidade dos setores do Maracanã.




Reportagem: Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis






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